Novo órgão para enfrentar o problema
GDF cria subsecretaria para fomentar políticas de combate ao avanço do crack na capital federal. Com orçamento de apenas R$ 250 mil para este ano, em vez do R$ 1 milhão pedido, a estrutura tem cinco profissionais
- Guilherme Goulart
- Renato Alves
- Fotos: Breno Fortes/CB/D.A Press & Kléber Lima/CB/D.A Press

O subsecretário Aldi Roldão espera obter bons resultados para que haja aumento no repasse de recursos públicos à nova pasta
As estratégias de combate ao avanço do crack na capital do país passam por inovações nas políticas públicas. No último dia 11, o Governo do Distrito Federal (GDF) criou a Subsecretaria de Políticas de Combate às Drogas para articular e fomentar a rede de proteção de segurança pública na luta contra o uso de drogas, com enfoque no crack — problema denunciado pelo Correio desde 2008 (leia Memória). O orçamento reduzido, porém, precisa ser superado no início do trabalho. O governo destinou R$ 250 mil para o órgão, sendo que se havia pedido R$ 1 milhão para este ano.
A subsecretaria, vinculada à Secretaria de Justiça do Distrito Federal, conta hoje com cinco profissionais. Além do subsecretário, Aldi Roldão, prestam serviço na nova estrutura um policial civil, dois advogados e um professor de educação física. Para ele, o aumento no repasse de recursos públicos depende de bons resultados. “Não quero uma superestrutura que não aja. Precisamos trabalhar e mostrar resultados para os recursos virem”, afirmou Roldão, que também participou do I Simpósio sobre Métodos de Enfrentamento à Disseminação do Crack.
O uso de verba no combate ao crack depende também da regulamentação do Fundo Antidrogas do DF (Funpad), criado em 2009 em substituição ao Fundo de Prevenção e Combate às Drogas (Funpcdf). O segundo, vinculado à Secretaria de Segurança Pública do DF desde 2006, jamais funcionou. Houve uma restruturação em 2007, mas a burocracia e a falta de vontade política o mantiveram ineficiente. Com o Funpad ligado à Secretaria de Justiça, é possível que a verba seja aprovada com mais facilidade. “Vamos apresentar a proposta de regulamentação na próxima semana”, garantiu Roldão.
Independentemente dos prazos, as primeiras ações da Subsecretaria de Políticas de Combate às Drogas miram investimentos na área de assistência e recuperação dos viciados em crack. A intenção é aproveitar as estruturas existentes de organizações não governamentais e entidades filantrópicas candangas com vagas disponíveis. “Cada vaga terapêutica custa entre R$ 500 e R$ 1 mil por mês, isso para bancar o custo de internação. Nossa ideia é dar apoio a essas entidades e criar mais espaços de tratamento no DF para esses usuários”, explicou Roldão.
Levantamento preliminar realizado pelo órgão da Secretaria de Justiça do DF aponta para pelo menos 20 clínicas e instituições candangas em condições de receber apoio do governo local. A maioria, no entanto, não tem cadastro no Conselho de Política Sobre Drogas do Distrito Federal. E o possível repasse de recursos públicos depende exclusivamente de um vínculo formal com o GDF. Assim, a Subsecretaria de Políticas de Combate às Drogas deve iniciar em breve uma mobilização para que sejam feitos cadastramentos com rapidez.
Superlotação
Por enquanto, os atendimentos na rede pública são direcionados para as unidades do Centro de Assistência Psicossocial para Usuários de Álcool e Outras Drogas (Capsad). A unidade do Guará aparece como a mais bem equipada e concentra a maior quantidade de assistência médica e social. Em fevereiro deste ano, balanço revelou que o Capsad local recebia, por dia, três novos casos de viciados em crack. O levantamento mostrou ainda que, de cada 10 pacientes recém-chegados, seis tinham relação com a substância derivada da cocaína.
Um dos principais problemas, no entanto, é a superlotação do sistema. A unidade do Guará tem mais de 6 mil pacientes cadastrados. Funciona superlotada. A procura, feita em parte a partir de hospitais da rede pública de saúde, ainda dobrou nos últimos três anos. E uma das explicações se encontra no crack. Parte do trabalho assistencial para dependentes químicos se divide nos Capsad de Sobradinho e de Ceilândia. Projeto do GDF prevê a construção de mais estruturas na capital do país. Santa Maria, Gama e Planaltina devem ganhar unidades até o fim do ano.
Comunidade também se mobiliza

Na fachada da padaria de Sebastião Carneiro de Souza, morto no último dia 21 durante assalto, cartazes e faixas pedem mais PMs nas ruas
A preocupação dos candangos com o aumento da relação entre as drogas e a criminalidade gerou uma série de discussões ao longo da última semana também por conta do assassinato do comerciante Sebastião Carneiro de Souza na 710 Norte. A vítima, de 52 anos, perdeu a vida ao ser assaltada por dois adolescentes, apreendidos pela Polícia Militar. Um dos responsáveis pela brutalidade tem 14 anos e passagens pela Delegacia da Criança e do Adolescente (DCA) por uso e tráfico de drogas, além de roubo, furto e lesão corporal. A região está entre as mais assoladas pelo crack no Plano Piloto.
Diante disso, a comunidade se mobiliza em torno de algumas iniciativas próprias. Está previsto para o próximo dia 31, por exemplo, reunião com os prefeitos das quadras residenciais das asas Sul e Norte, da Vila Planalto, da Granja do Torto e da Vila Telebrasília. Vários pontos serão discutidos, como as escalas e o patrimônio histórico de Brasília. Um dos mais sensíveis, no entanto, passa pela segurança pública. “Vamos colher informações e encaminhar aos candidatos ao governo até 21 de setembro”, explicou o presidente do Conselho Comunitário de Segurança de Brasília, Saulo Santiago.
Ele ficará responsável por colocar em debate a questão do avanço do tráfico e o uso das pedras na capital do país. “Esse nível (relação entre droga e crime) cresce geometricamente. O crack ainda vem com uma série de problemas, principalmente na questão do patrimônio. As pessoas estão atemorizadas”, afirmou Santiago. Para o principal representante do conselho de segurança do Plano Piloto, o combate não deve ficar limitado à ação policial. “Não é somente problema de polícia. O problema também é da família e da escola”, avaliou.
Policiamento
Ao longo da última semana, o Correio circulou no Plano Piloto e em Taguatinga em busca de flagrantes de tráfico e uso de crack. Encontrou duplas de policiais nas ruas, mas insuficientes para coibir o consumo indiscriminado da substância derivada da cocaína. Os incômodos são os mesmos nas duas localidades candangas. Perto da Praça do Relógio, em Taguatinga, pedestres e vendedores reclamam da insegurança. “A gente trabalha com um olho voltado para atender o cliente e outro em possíveis ladrões. A maioria furta e vende a mercadoria para comprar crack”, contou o funcionário de uma loja de sapatos.
O jornal denunciou ao longo da semana a falta de recursos humanos no policiamento ostensivo do Distrito Federal. Do efetivo de 14 mil homens da Polícia Militar do DF, apenas 7 mil integram a escala que prevê um dia de trabalho e três de folga. Com isso, resumem-se a 2,6 mil que atuam diariamente nas ruas. Os demais 50% da tropa exercem funções burocráticas. Com o número reduzido, a criminalidade cresceu no DF. Houve 53.107 ocorrências de furtos e roubos nos primeiros sete meses. O Plano Piloto aparece como a região mais atingida pelos bandidos, com 12.406 casos. São dois casos por hora.
Esse nível (relação entre droga e crime) cresce geometricamente. As pessoas estão atemorizadas”
Saulo Santiago, presidente do Conselho Comunitário de Segurança de Brasília
Memória
Quase dois anos de denúncias
A chegada e o avanço do crack na capital do país são denunciados nas páginas do Correio Braziliense desde dezembro de 2008. As primeiras reportagens sobre a epidemia revelaram que a área central de Brasília estava tomada por traficantes e usuários da droga. Regiões como o Setor Comercial Sul e o Setor de Diversões Sul (Conic) apareciam como os principais pontos de passagem e concentração desses grupos no Plano Piloto — o problema se expandiu e continua até hoje. Em 9 de janeiro do ano passado, o jornal mostrou que o comércio do crack saía da região central e avançava sobre a Asa Norte. A reportagem se concentrou nas quadras 314 e 315 e descreveu o movimento de jovens traficantes e de viciados entre prédios residenciais e comerciais. O jornal abriu outra série de denúncias no início deste ano. Em 2 de janeiro, o Correio identificou seis quadras da Asa Norte onde havia traficantes e usuários das pedras. Nos dias 11 e 17, o jornal descreveu o avanço da droga na áreas rurais e urbanas localizadas no Entorno, além de São Sebastião. Equipes de repórteres também denunciaram o problema em Taguatinga e Ceilândia.
Katia Aguiar1
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