Categoria : Cultura
PIONEIRA DA INCLUSÃO CULTURAL
Correio Braziliense – 16 de janeiro de 2012 – Pág.11
PIONEIRA DA INCLUSÃO CULTURAL
Paulo Kramer
Cientista político
A vida e a obra de Conceição Moreira Sales — a Conceição da Biblioteca, como muitos a chamavam carinhosamente — são maiores que a sua morte súbita e prematura. Durante seus quase 30 anos na direção da Biblioteca Demonstrativa de Brasília (BDB/Fundação Biblioteca Nacional), essa bibliotecária, servidora pública e fomentadora cultural exemplar cultivou, em plena W3-Sul, um oásis que acolheu e deu de beber a todos os sedentos de saber e de beleza desta capital de um país que Oswaldo Aranha, em 1933, definira como deserto de homens e ideias.
Quando Brasília ainda era pouco mais que uma adolescente sem história, Conceição subverteu a visão então dominante de biblioteca como ilha repleta de livros parados nas estantes, cercada de silêncio por todos os lados, e transformou a BDB em um organismo vivo, indispensável, graças à interação permanente com o pulsar da cidade. Não conheço nenhum escritor, artista plástico ou mesmo músico brasiliense que, no início da carreira, não tenha recebido da BDB, por intermédio de Conceição, um estímulo e, sobretudo, um espaço para levar ao público as primícias do seu trabalho, tantas foram as noites de autógrafos, as exposições e as sessões da Bibliomúsica que ela patrocinou.
Se hoje todo o mundo fala em inclusão cultural, vale lembrar que Conceição sempre a praticou, arregimentando professores voluntários ou quaisquer outros cidadãos — e principalmente cidadãs –, com tempo disponível e compromisso com a educação, para oferecer plantões de reforço e esclarecimento de dúvidas a alunos de todas as séries, principalmente os que estudam nas nossas detonadas escolas públicas. Estudantes e concurseiros pobres, filhos de famílias numerosas, sem um cantinho tranquilo em casa para ler e fazer suas tarefas, ali encontram paz, conforto e alimentação a preço módico, pois, no prédio da BDB, ela criou uma cantina que funciona até tarde da noite.
Sua liderança proativa conquistava a fidelidade e a cooperação de sua pequena equipe, bem como o entusiasmo e o carinho de uma multidão de admiradores, que se tornavam seus amigos por toda vida. Que o digam, por exemplo, as adoráveis senhorinhas do programa de atualização feminina, mais uma iniciativa de Conceição, que há 25 anos se reúnem, religiosamente, nas tardes de quarta-feira para ouvir palestras sobre os temas mais quentes da agenda nacional e internacional e, depois, crivar de perguntas inteligentes e oportunas os expositores convidados. Tive a honra de ministrar conferências anuais sobre conjuntura política e relações Executivo-Legislativo a esse simpático e animado grupo.
Como ninguém, ela conhecia (e sofria com) o descaso, o imobilismo e a hipocrisia demagógica que as autoridades governamentais costumam votar à leitura, à arte, numa palavra, à cultura no Brasil. Mas isso, ao invés de desanimá-la, parecia incendiar o seu empreendedorismo e a sua criatividade, levando-a a iniciar e consolidar parcerias com todas as esferas e níveis do Estado e com os mais variados setores da sociedade, aí incluídos com destaque os meios de comunicação, a fim de promover os eventos e a modernização de processos de trabalho (como a digitalização de acervos) que jamais cabiam no magro orçamento público).
Seu legado revela grandeza cívica e humana, mas sua ausência sublinha quão precária continua sendo a institucionalidade da ação cultural em Brasília e em todo o Brasil: quando um ator da sua importância sai para sempre de cena, sua herança é ameaçada pela acomodacionismo, pela pasmaceira burocrática, pelo carreirismo miúdo dos que gastam tanto tempo e tanta energia lutando para ocupar cargos que nem lhes passa pela cabeça desempenhar a missão e preencher as expectativas que deveriam estar sempre associadas à concepção de serviço público como serviço ao público. Como ensina Max Weber, quando o carisma se retira, o que fica é a rotina.
A pior das traições que nós, amigos, admiradores e beneficiários da obra de Conceição, podemos cometer contra esse legado é abandoná-lo e esquecê-lo.
Agora, entre as inúmeras lições de humanismo, ética, saber, beleza e cidadania que ela, generosa e incansavelmente, nos transmitiu, precisamos resgatar a que ensina a triunfar das dificuldades mobilizando as forças mágicas da cooperação e da participação. Só assim honraremos de fato a sua memória e preservaremos para os brasilienses das próximas gerações o mundo que Conceição Moreira Sales criou.
Biblioteca convida!
Convite
A Biblioteca Demonstrativa de Brasília (W/3-Sul, EQ. 506/7) convida para o concerto da BRAPO – BRASÍLIA POPULAR ORQUESTRA, sob a Coordenação do Maestro MANOEL DE CARVALHO, no dia 28 de novembro (segunda-feira), às 19h30, quando comemorará 41 anos de sua criação e encerrará as apresentações do Projeto Bibliomúsica este ano.
Na ocasião, a Biblioteca presta homenagem à cantora CELY CURADO.
Informações pelos telefones: 3443-5682 ou 3244-3015.
Convite Arte do Encontro – Dezembro 2011
A 31ª edição, A Arte do Encontro e Outras Artes surpreenderá sua clientela com vários novos expositores, cujas peças vão do utilitário ao decorativo e de uso pessoal. Pequenas esculturas, porcelana, velas, flores de folhas esqueletizadas são algumas das novidades que o público interessado em compras diferenciadas, longe do burburinho dos shoppings, vai encontrar na mostra. No total, são 35 artesãos e designers.
A programação cultural, gratuita, também estará incrementada com boa música do cenário brasiliense: Mirian Marques Jazz Trio faz o show da sexta-feira, enquanto no sábado tem Carrapa do Cavaquinho com Laércio Pimentel no violão de sete cordas e Augustinho no pandeiro. No domingo, apresentam-se o Coro Italiano da UnB e Thiago Ribeiro e Tiago Alves com moda de viola. Dança Circular e um passeio pela poesia brasileira também estão na programação cultural. Na noite de sábado, Ivany Câmara Neiva estará autografando seu livro ” Brasília em 51 cartas”.
A Arte do Encontro e Outras Artes é um evento de caráter cultural e de comercialização de produtos estritamente artesanais que foi realizado pela primeira vez em 1998, como resultado da iniciativa de artesãos, designers e artistas plásticos de Brasília. Desde essa data, vem proporcionando um oportuno encontro entre as pessoas que valorizam o trabalho criativo e aquelas que produzem, seja individualmente ou em grupo.
02/12 de 17 às 22h / 03/12 de 11 às 22h / 04/12 de 11 às 20h
SHIN QI 14 conjunto 08 casa 23 – Lago Norte
Aguardamos vocês!



