Trote Boçal – Crônica da Cidade

Severino Francisco

Estudantes da Faculdade de Agronomia e Veterinária da UnB brindaram o país com um melancólico espetáculo de boçalidade ao promover um trote em que algumas calouras chafurdavam na lama e outras eram obrigadas a lamber uma lingüiça lambuzada de leite condensado. Ao redor, os veteranos e veteranas se divertiam achando tudo muito engraçado. O efeito da cena se torna ainda mais constrangedor se a confrontarmos com as imagens de jovens de todo o país envolvidos em uma ampla e tocante mobilização de solidariedade visando arrecadar alimentos e roupas para as vítimas das enchentes na região serrana do Rio de Janeiro.

Em maio no ano passado, alunos da engenharia civil passaram pelos corredores da UnB gritando as seguiintes palavras de ordem de provocação aos estudantes de arquitetura: “Arquiteto bichinha, só brinca de casinha/1,2,3,4,5, mil/Trote solidário vai pra p…” A argumentação de que tudo não passa de uma brincadeira não resiste a um rápido exame da história do trote, que compõe uma triste memória de agressões, traumas, humilhações e mortes. Consentido ou não, esse ritual tem um caráter truculento, desqualificável, aviltante e incompatível com uma instituição de ensino superior.

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Um e-mail manchado de sangue – Crônica da Cidade

Sérgio Maggio

sergiomg.df@dabr.com.br

Esta crônica não tem final feliz, não flerta com as coisas boas da vida. É nascida num dia de incerteza e de angústia. Talvez porque, no fim de semana, convivi com brasilienses mortos de medo da violência que cerca o Plano Piloto e as cidades. Talvez porque, no fim de semana, soube de mais uma história de um cidadão brasiliense sequestrado no SIA e morto na própria casa. Não é fruto também de nenhuma paranoia urbana. Estamos com medo de ir ao estacionamento sozinhos. E isso é um claro sinal da perda de confiança no poder público.

Não sei por que recebo diariamente, na minha caixa de entrada, um e-mail com o boletim de ocorrências da Polícia Civil do DF. Quase nunca abro, mas não resisti ao de ontem. Quando cliquei a mensagem da Divisão de Comunicação da Polícia Civil do DF, tomei um susto: eram sete páginas ocupadas por 31 destaques de violência. Tráfico de drogas, latrocínio, roubo de veículos, estelionato, posse ilegal de arma e algumas tentativas de homicídio figuravam entre os delitos listados. Li, uma a uma, as ocorrências. E uma observação explícita me deixou ainda mais deprimido: os protagonistas dessas tristes narrativas, em boa parte, tinham pouco mais de 20 anos.

Jonata, 24, Vanessa, 22, e Thalita, 20, roubaram um carro e outros objetos, como um monitor de computador, de um colégio para trocarem por drogas. Foram presos em Ceilândia Norte e recolhidos à carceragem do DPE e à Penitenciária Feminina do DF.

Arlei, 19, furtou duas bicicletas em Taguatinga Sul e foi preso em flagrante.

Fábio, 23, anunciou um assalto numa chácara do Setor Gama Norte e foi baleado em troca de tiros com a polícia. Morreu no HGR.

Tatiara, 18, em companhia de uma adolescente de 16 anos, roubou e matou um pai de família, de 67 anos, em Santa Maria. A vítima foi encontrada com um cinto amarrado no pescoço e lesões na cabeça, em evidente requinte de crueldade. Elas já estão presas.

Por delitos diversos, Fabrício, 26, Maurício, 26, Diogo, 20, Alan, 18, Higor, 18, Osvaldo, 23, Wesley, 21, Gustavo, 20, Fábio Júnior, 19, e Francisca, 20, também começam o mês de fevereiro no xadrez.

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Restam o medo e a desconfiança

VIOLÊNCIA

Restam o medo e a desconfiança

Quem fica nas mãos de um bandido dificilmente volta a confiar na segurança pública. Ex-secretário Nacional de Segurança critica esquema de trabalho de policiais do DF

  • SAULO ARAÚJO
Carlos Silva/Esp. CB/D.A Press – 5/6/10

Fátima Mendes, que teve a irmã assassinada em 2008, diz que os sobrinhos mudaram o comportamento

As vítimas de violência que hoje tentam se recuperar de algum trauma são unânimes em afirmar que não confiam mais no Estado. Todos acreditam que se houvesse políticas mais eficazes voltadas para a segurança pública não teriam passado por situações tão difíceis de serem superadas. A servidora pública Fátima Mendes, 38 anos, é irmã da caixa Ana Paula Mendes, 33, assassinada a facadas em 15 de dezembro de 2008, pelo marido, o vigilante Marcelo Rodrigues Moreira, da mesma idade. O crime ocorreu num restaurante da 404 Norte.

Quase dois anos após o homicídio, Fátima conta que os três sobrinhos, que ela passou a criar, mudaram radicalmente de comportamento. “O mais novo, de 12 anos, não quer ir à escola. O Conselho Tutelar até me chamou para conversar. Já a do meio (de 16 anos) fala quase todos os dias que tem vontade de matar o padrasto. Fora que ninguém mais confia em polícia, pois ela fez a denúncia de ameaça e não adiantou nada. Precisou pagar com a vida”, desabafou Fátima.

Marcelo foi julgado e condenado a 24 anos de prisão. Esse foi o primeiro caso em que o Pró-Vítima atuou como assistente da promotoria do Ministério Público. Para a subsecretária Valéria Velasco, o trabalho de reconstrução da vida de um traumatizado depende também dos resultados obtidos nos tribunais. “Quando alguém que está sofrendo muito sabe que a pessoa responsável por lhe causar aquela dor é punida exemplarmente, diminui a sensação de impunidade e isso ajuda muito no processo de voltar à rotina”, destacou a subsecretária do Pró-Vítima.

Balanço
A opinião de especialistas ouvidos pelo Correio não difere muito do que pensam as vítimas de violência. Críticas à jornada de trabalho dos agentes, má gestão dos recursos destinados ao combate a delitos e rivalidade entre as Polícias Civil e Militar são fatores apontados como determinantes para que os índices de criminalidade na capital do país se mantenham elevados. No primeiro quadrimestre deste ano, a Secretaria de Segurança Pública do DF registrou 4.210 ocorrências de crimes contra a pessoa, sendo 235 homicídios, 340 tentativas de homicídios, 3.635 casos de lesão corporal, além de 154 estupros.

Para o consultor em segurança pública e ex-secretário Nacional de Segurança José Vicente da Silva, o Distrito Federal poderia gozar de uma situação mais confortável se houvesse uma mudança radical na postura dos gestores do setor. “Em Brasília, não falta recurso. Proporcionalmente à sua população, é a que está mais bem servida de policiamento no Brasil inteiro. Me arrisco a dizer que é uma das cidades que mais tem policiais em relação ao número de habitantes no mundo, mas enfrenta os mesmos problemas de outras cidades por falta de organização”, criticou Vicente, que também é coronel aposentado da Polícia Militar do Estado de São Paulo.

Ele discorda da escala de plantão dos policiais brasilienses, que permite a eles folgar até três dias na semana. “Em nenhum estado brasileiro existe essa escala. Essa folga tão longa permite ao policial fazer bico e exercer outras atividades clandestinas. O fato hoje é que o policial do DF ganha o triplo da média nacional e trabalha três vezes menos. Isso, naturalmente, reflete nas ruas”, complementou Vicente.

Discussão sobre jornada de PMs

Paulo H. Carvalho/CB/D.A Press – 21/8/08

Antônio Testa: “Penso que o comando deveria ser um só”

O presidente do Fórum das Associações de Policiais Militares e Corpo de Bombeiros do DF, coronel Manoel Brambilla, defende que a jornada dos policiais e bombeiros militares do DF seja a mesma da maioria dos outros trabalhadores do serviço público.

“Independentemente se for plantão ou expediente, eu acho que a jornada de qualquer policial deveria ser seis ou oito horas, respeitando as particularidades de cada função. Por exemplo, a dupla Cosme e Damião, que faz ronda a pé, não deveria ultrapassar as seis horas de serviço. Mais do que isso começa a interferir na qualidade do serviço do policial, pois ele vai ficar extremamente cansado. Já quem trabalha no patrulhamento motorizado poderia seguir um outro regime, mas não trabalhar 12 horas, como é hoje. Essa discussão sobre escala existe desde 1809 (ano da fundação da primeira unidade da PM). Quem critica a escala tem argumentos fortes e quem defende, também. Acho que deveria haver um estudo aprofundado sobre o assunto para se chegar a um denominador comum”, ponderou Brambilla.

O sociólogo da Universidade de Brasília (UnB) e especialista em segurança Antônio Testa acredita que os resultados dos trabalhos das Polícias Civil e Militar poderiam ser mais efetivos se as duas instituições fossem mais unidas. “Em Brasília, como em algumas outras cidades do país, existe uma rixa histórica entre as polícias. Penso que o comando deveria ser um só, alguém com autoridade sobre as duas corporações para implantar uma política integrada, que consistiria em compartilhar todas as informações da área de segurança, tanto no que envolve policiamento investigativo, como preventivo. Hoje, ocorre que as polícias não deixam de ser corporativistas e pouco voltadas para os interesses da sociedade ”, opina. (SA)

Em duplas

Inspirados nos nomes dos santos gêmeos Cosme e Damião, os policiais militares fazem rondas a pé e em duplas na região central da capital federal. Esse tipo de policiamento ficou muito famoso na década de 1980, mas havia sido abolido pelos últimos governos. As duplas voltaram às ruas em agosto de 2009, após manifestações de moradores e comerciantes do centro de Brasília. Em média, 150 homens e mulheres armados e uniformizados trabalham em todo o Plano Piloto.

Uma chance para tentar

Para quem não conhece a história de Fábio ou não se recorda, segue abaixo uma matéria publicada no Correio Braziliense. Outras informações podem ser obtidas no blog: www.fabiogrando.blogspot.com ou pelo e-mail: fabiohfg@hotmail.com

Há quatro anos, Fábio ficou tetraplégico. Quer chegar aos Estados Unidos, para tratamento. As possibilidades de voltar a andar são mínimas, mas ele luta para recuperar o movimento das mãos e voltar a trabalhar

A dependência de Fábio é diária, nos mínimos detalhes. “Não é justo fazer isso com minha família”, diz

Corria o ano de 2005. Uma amiga de época do ensino fundamental, que há algum tempo ele não via, um belo dia, ligou. Contou o acidente de carro que tinha sofrido. Falou das suas limitações. E de como era complicado viver num mundo não feito para quem não conseguia andar. A amiga ficara tetraplégica, mas já conseguia, com muitos exercícios, movimentar um pouco braços e mãos. Pediu que ele visse, na faculdade onde estudava jornalismo, se o câmpus era adaptado para deficientes. Se havia elevador, rampas, acesso fácil aos banheiros. Prontamente, ele ouviu o desabafo da moça. Emocionou-se. Falou com os seus professores. E ligou em seguida, feliz em poder ajudar a amiga: “Pode vir sem medo. Aqui todo mundo vai te receber bem”.

Animada, a moça foi. Comemoram juntos a chegada dela. Ele a ajudou no dia a dia. A esperança renovada, por mais difícil que fosse refazer planos. No ano seguinte, como essas voltas que a vida dá, era ele, também tetraplégico, que entrava na mesma faculdade numa cadeira de rodas. Em 2008, chegaram ao fim do curso juntos, empurrando suas pernas emprestadas.

Junho de 2006, Copa do Mundo. Brasil e Austrália fazem o segundo jogo do mundial. A casa de um amigo no Lago Sul foi o lugar escolhido para a reunião. Fábio Grando, então com 21 anos, natural de Guaporé (RS), torcedor doente do Grêmio, frequentava o lugar e conhecia bem as dependências dele. Inclusive a piscina. O jogo prosseguiu. O calor estava grande.

Fábio entrou na piscina.“Pulei de ponta e bati no fundo. Lembro da batida, do barulho da cabeça na piscina. Não desmaiei, fiquei consciente, mas não conseguia mais nadar”, lembra. De repente, a piscina ficou escura. Era o sangue da cabeça de Fábio. Um amigo percebeu que alguma coisa tinha acontecido. Pulou na piscina para socorrê-lo. Os amigos ligaram para o Corpo de Bombeiros, que,imediatametne, chegou. Colocaram-lhe um cordão cervical e o levaram para a ambulância. “Ouvia os bombeiros dizendo: ‘Vai devagar’. Não entendia por que falavam aquilo. Eu permaneci consciente o tempo todo.”

Ao chegar ao Hospital de Base (HBDF), Fábio encontrou os pais. “Foi quando consegui relaxar.” O rapaz foi levado às pressas para a emergência. Exames revelaram que ele havia fraturado a medula. E, na emergência do HBDF, ficou por quatro dias, à espera de uma cirurgia e posterior remoção para o Hospital Sarah do Aparelho Locomotor.

Infarto
A mãe, nutricionista, parou de trabalhar e passou a cuidar do filho dia e noite. Um dia, depois do almoço, no quarto do filho, ela se queixou: “Fábio, vomitei tudo. Não tô bem”. Jovem, então com 40 anos, check-up em dia, ela cuidava da alimentação com muita rigidez. Fábio só ouviu o barulho da mãe caindo ao lado da sua cama. Sem mover braços, pernas nem pescoço (apenas movimentava os olhos), ele não entendia o que se passava. Tampouco conseguia chamar alguém.

Uma enfermeira, nessa hora, passou. E socorreu a mãe do rapaz que não conseguia mais nem pedir socorro. Solange Grando teve um infarto. Do Sarah, ela foi levada às pressas para o Instituto do Coração (Incor-DF). Durante o trajeto, sofreu sete paradas cardíacas. Fez cateterismo. Resistiu, sem sequelas. Passou uma semana internada. O pai dele, o comerciante Éder Grando, então com 43 anos, se dividia entre o Incor e o Sarah.

“Se ela não fosse socorrida a tempo, se estievesse na rua, por exemplo, não teria resistido. Precisei ficar assim para salvar a minha mãe. Foi essa a grande lição que tirei disso tudo”, emociona-se Fábio.

O infarto de Solange foi causado pelo esgotamento emocional (estresse), afirmaram os médicos. Em 10 de julho, 22 dias depois do mergulho na piscina, ele foi operado. Colocaram quatro parafusos no pescoço e uma placa de titânio para fixar a vértebra.

No Sarah da Asa Sul, Fábio ficou internado por quatro meses. Voltou para casa, com um colar cervical e numa cadeira de rodas. “O pior momento pra mim foi quando me colocaram nela (na cadeira de rodas). Aí, comecei a perceber o tamanho das minhas limitações”.

Estados Unidos
Começou 2008. Ele voltou à faculdade. Terminou o curso de jornalismo. Sentiu o que sua amiga cadeirante sentia. Formou-se e nunca pôde exercer a profissão. Não consegue ainda mexer as mãos nem as pernas.

A mãe parou de trabalhar de vez. Cuida dele 24 horas. “O que me angustia é essa dependência”, resume.

É por isso que hoje, aos 25 anos, ele tenta chegar a San Diego, nos Estados Unidos. Quer uma vaga no Project Walk — tratamento desenvolvido por um fisioterapeuta daquele país que se baseia na repetição dos movimentos, no método de pilates. “Quero tentar pelo menos mexer um pouco as mãos, ser mais independente, para voltar a trabalhar (antes, ele estudava e trabalhava como assessor de imprensa).“Aí, as pessoas me perguntam: ‘Mas você só quer isso?’ Isso já seria muito. Queria retomar minha vida. Deixar minha mãe desobrigada de me levar ao banheiro, me dar banho e até água na boca. Não é justo o que ela, o meu pai e meu irmão têm passado por mim”.

O tratamento custará US$ 55 mil (cerca de R$ 112 mil). Os amigos que não foram embora se organizam em festas para arrecadar a quantia necessária. Há 20 dias, a campanha Bora, Fabito! foi lançada. Folderes espalhados pela cidade. “Já arrecadamos R$ 3,9 mil. Equivalem a sete dias do meu tratamento”, contabiliza Fábio, cheio de motivação, no blog que criou para contar sua história e luta. “Vou agradecer a cada pessoa que me ajudou.”

Mesmo que nunca mais ande, o que ele quer e sonha é apenas mover as mãos, abrir os dedos, para empurrar sua própria cadeira. Beber água sozinho, escrever sem ajuda do adaptador. Acenar para um amigo na rua. Pouco, muito pouco, para quem não tem ideia disso. Muito, demasiadamente muito, para quem precisa de tão pouco.
SOLIDARIEDADE// Quer ajudar Fábio a tentar? Banco do Brasil – Agência: 3596-3 – Conta Corrente 9411-0 www.fabiogrando.blogspot.com